- Ainda não acho que tenha sido uma boa ideia - comentei.
- Apenas ande.
Era meia noite e estávamos no meio de uma floresta abandonada ao lado da nossa pousada - ou o que eu achava que era ao lado. Isaque não adimitia, mas estávamos perdidos, sem nenhum meio de comunicação próximo, sem comida, sem água, sem meio de transporte que passasse entre troncos de setenta centímetros de espessura no mínimo e ainda tínhamos um bônus: uma criança medrosa.
Eu, Isaque e Gabi tínhamos saído às nove horas da noite pra ver se conseguíamos caçar alguns vagalumes e insetos pelos extremos da floresta, porém nada ocorreu como nós desejávamos; relâmpagos, uivos, animais selvagens, escuridão e assobios nervosos era tudo que tínhamos conseguido naquela madrugada.
Após o choro amedrontado da Gabi ter cessado há umas três horas por causa dos relâmpagos nada amigáveis, conseguimos fazê-la dormir e desde essa hora, estávamos andando sem parar em busca da saída dessa floresta. Sim, três horas andando e andando e o Isaque ainda não havia notado que estávamos perdidos - ou havia notado, mas não queria dar o braço a torcer por isso.
- Acho que esstou vendo uma luz lá longe... vem ver aqui, Amanda.
Olhei para trás de mim e vi o Isaque um pouco abaixado com os olhos semicerrados, observando algo que eu gostaria que fosse a saída dessa floresta. Andei uns dois passos até chegar ao lado dele e me ajeitei na mesma posição dele, tentando encontrar algo. Expressei dúvida em meu rosto e olhei para ele, que estava sorrindo para mim com um pouco menos de dez centímetros de distância entre nossos rostos.
- O que foi?
- Você tem bochechas gordinhas.
- Mas que droga, Isaque - ri dele.
Como ele consegue fazer esses comentários sem nexo algum numa hora dessas? Qual é a dificuldade de notar que nós estamos correndo um belo de um perigo aqui? Só Deus sabe quantas feras selvagens têm aqui, e, julgando pelos uivos distantes de algo que julgo ser lobos, não são poucos não.
- Olha! - Ele apontou fazendo bico para frente, já que suas mãos estavam ocupadas carregando a Gabi. Olhei para frente e vi uma luz fraca bem distante, que mal dava pra enxergar. Olhei em volta da luz e notei que era produzida por uma lanterna, e que haviam vários canos de ferro em volta dela e também alguns pinceis sujos de tinta azul e amarela, e mais algumas latas de pixe preto. Observei atentamente a lanterna e vi que ela tinha acabado de parar, então (1) tinha sido deixada lá ainda pouco ou (2) alguém passou por lá e mexeu nela.
- Talvez eu consiga pegar aquilo.
- Você não vai pegar aquela lanterna.
- Claro que vou, ela pode ser muito útil em alguns momentos.
- É perigoso demais, você não pode ir.
- Tu não disse que está com dor de cabeça de tanto forçar a vista nesse escuro?
- Eu não vou te deixar ir, Amanda.
- É muito mais fácil eu ir do que tu ir, Isaque. Se acontecer algo comigo, tu vai saber se defender, cuidar da Gabi, sair daqui, se proteger, correr...
- Amanda, você não vai! - elevou o tom de voz me interrompendo, e eu decidi me calar. Uivos de lobos foram soados um pouco menos distantes de nós dessa vez. Minha barriga roncou. A tempestade de trovões parou por uns segundos. O silêncio estava mais forte na hora.
Se eu posso ser bem sincera, seria muito idiota se o Isaque fosse pegar essa lanterna. Tudo bem que ele está com as duas pernas boas, e que ele corre três vezes mais rápido que eu, e que, se algum animal o ver, ele vai conseguir se refugiar mais depressa, mas e se ele não conseguir? Se ele não conseguir fugir e esse animal fizer algo com ele? Como é que eu fico? Como é que a Gabi fica? Eu não vou conseguir correr com ela, aliás, eu mal conseguiria correr sozinha com a dor que eu estou na perna. Além de que, se eu conseguir me refugiar e me esconder desse animal, outros virão atrás, e eu não vou conseguir achar uma saída porque terei medo, e alimento será (já é) o nosso foco principal, e eu não vou conseguir cuidar de mim e mais uma criança sozinha. É muito mais inteligente que eu vá. É perigoso, é, mas qualquer coisa aqui nessa floresta é perigosa. Se eu não posso ir pegar essa droga de lanterna, ele não vai também. Ficaremos sem luz, mas eu não deixarei que aconteça algo com ele.
- Se eu não for, tu não vai também.
- Amanda...
- Isaque, não!
Olhei para ele, que me encarava um pouco surpreso. Não era sempre que usávamos esse tom um com o outro. Nunca fora necessário. Suspirei pesadamente e olhei paraa Gabi. Seus olhos estavam meio que pressionados, e suas sobrancelhas franzidas. Sua pálpebra remexia com o movimento dos seus olhos. Ela estava sonhando. Com a expressão facial dela, era um pesadelo. Não, não, não, por favor, não! Um pesadelo dela agora é o que eu menos iria querer! Sempre, sempre que ela tem um pesadelo, ela acordar assustada, gritando, se estapeando, chorando, fazendo um escândalo. Com esses lobos aqui, a coisa que nós precisávamos evitar ao máximo era barulho. Cutuquei Isaque e apontei com as sobrancelhas para a Gabi. Ele virou o pescoço lentamente e viu o rosto dela apoiado em seu ombro. Engoliu em seco.
- Droga - murmurou.
Olhou pra mim e ficou quieto. Um gemido nasalado saiu da garganta da Gabi. Não iria demorar muito para ela começar a chorar. Um, dois, três segundos. Outro gemido. Mais alto dessa vez. Olhei pros lados.
- Está ouvindo isso? - ouvi a voz do Isaque sussurrar perto do meu ouvido.
- Não - falei mais baixo que ele, minha voz quase sem sair da garganta.
- Presta atenção - falou. Fechei os olhos pra me concentrar. O barulho do assobio do vento já não me era mais novidade; assim como o uivo dos lobos também não, exceto pelo tom do uivo. Um uivo mais grave. Mas profundo, como se forçasse a garganta pra uivar. Devia ser uma espécie diferente. - Ouça - ele falou e eu levei um sustinho com a voz dele tão próxima de mim. Prestei mais atenção. O barulho de folhas tinha diferenciado. Estava distante, mas não era identificável: passos. Alguém corria para nossa direção. E muito rápido. Nessa velocidade, talvez estivesse a uns cinquenta quilômetros por hora. Para um lobo, é uma velocidade muito alta. Olhei para o Isaque, ele estava nervoso. Olhei para Gabi, gemia e remexia os olhos por trás das pálpebras fechadas. Olhei para mim mesma, e vi o nervosismo estampado na tremedeira da minha mão e das minhas pernas.
- O que a gente faz?
- Sobe numa árvore. Depressa.
Os passos aumentaram num nível que eu não diria ser tão alto, porém, era, sim, alto.
- Não sei subir em árvores.
- Então essa é a hora de aprender.
Ele apontou para uma árvore próxima a mim e logo deu alguns passos para trás, para subir em outra. Com uma criança em suas costas, era praticamente impossível subir numa árvore sem acorda-la. Olhei para a minha.
É agora ou nunca. Literalmente.
Segurei num galho grosso e pisei numa pedra. Uma dor percorreu da sola do pé até a nuca. Fechei os olhos, balancei a cabeça e continuei subindo. Mais um galho. Segurei num galho mais fino, que parecia que ia quebrar logo que pouco esforço se fizesse presente sobre ele. Segurei nele e coloquei todo o meu peso nos outros galhos, que aparentavam mais fortes. Olhei para a luz da lanterna. Estava mais fraca. Ouvi atentamente os passos incessáveis. Se fosse um lobo, à essa velocidade, já teria cansado e parado para descansar por pelo menos três minutos. Estavam mais rápidos e mais próximos. Muito mais próximos. Não devia estar a mais de trinta metros de nós.
Observei por entre uns galhos, ainda sem colocar força no galho fraco, e olhei diretamente para onde a lanterna iluminava. Em menos de dois segundos, levei um susto tão grande, que me despercei e coloquei peso no galho fraco, que quebrou, fazendo um estalo estrondoso, e quase que eu caí no chão, mas me segurei num outro galho mais forte e evitei a minha queda. O susto que havia levado era por ter visto aquela criatura passando num vulto em frente da luz, que estava virada exatamente em nossa direção, mostrando apenas a silhueta do animal. Aquilo sem dúvidas não era um lobo. Se fosse um lobo, seria de uma espécie completamente diferente, maior, mais magra, corcunda, com patas articuladas, focinho menor e olhos mais separados. Sim, eu notei nos olhos da criatura. Era impossível não notar dois pontinhos extremamente amarelos e odiosos encarando seus olhos como se te conhecesse há anos e te odiasse há mais tempo ainda. O galho que eu derrubara havia caído no chão, e partido ao meio um monte de folhas secas e outros galhos recentemente derrubados. Os passos do animal que havia passado correndo por ali diminuíram, e então pararam completamente. Escutei outros passos mais lentos novamente, mas logo sumiram em meio a uivos graves e se renovaram por passos muito mais rápidos que antes.
Meu coração estava desparado e eu mal conseguia respirar entre tantas batidas desesperadas pelo meu peito.
Subi mais alguns galhos até chega num bem grosso, e me sentei por cima dele, me apoiando no tronco principal. Deitei minha cabeça contra o tronco e então suspirei profundamente. Olhei para o lado e vi o Isaque dormindo com a Gabi mais calma em seu colo. Nossos galhos estavam bem próximos, por sorte. Cutuquei Isaque e esperei que ele despertasse para falar algo. Ele olhou pros lados e quase se desequilibrou, mas se apoiou num outro galho e voltou à posição normal. Olhei para o galho onde ele estava e notei que era bem mais fino que o meu. Se eu deixasse a Gabi no meu colo seria mais fácil para ele se aconchegar no galho.
- Quer tirar um cochilo? - perguntei.
- Tenho que ficar vigiando, para ver se algum animal se aproxima, ou sei lá.
- Eu posso fazer isso, durma um pouco.
Ele olhou pros lados e pareceu um pouco incomodado com a ideia, mas logo cedeu e assentiu. Estiquei os braços para pegar a Gabi, e notei que seria quase impossível movê-la de um galho para o outro sem acorda-la. Tudo bem, daqui a pouco ela acordaria mesmo, então não teria problema.
Isaque cutucou Gabi, que abriu os olhos lentamente e logo remexeu-se de um lado pro outro, quase desequilibrando o Isaque.
- Mamãe... - murmurou quando chorando, e ao olhar pra altura que estava, começou a lacrimejar. - Mamãããe...
- Calma, meu amor - falei e me ajeitei no galho para que ela se sentisse mais segura para passar para o meu galho. - Venha cá, venha - estiquei o braço, mas ela continuou se segurando forte no Isaque, chorando e gemendo, enquanto que o Isaque ficava fazendo "shhh" o tempo todo para ver se a acalmava.
- Mamãe, estou com medo, mamãe - começou a soluçar silenciosamente em conjunto com as lágrimas que escorriam livremente pelas suas bochechas.
- Não precisa de medo, meu amorzinho - falei e me ajeitei melhor no galho. Se ela não pular logo, vai ficar difícil pra eu me acomodar depois nesse galho. - Venha, pule - falei, mas ela não queria se soltar do Isaque, que apenas a segurava para não cair. - Isaque, ajuda aqui, vai - implorei. Ele olhou para mim e piscou lentamente de sono. Suspirou e segurou Gabi por debaixo dos braços e a ergueu, que começou a se debater de medo de altura, e então a esticou até que eu pudesse pega-la. - Vem cá, amor - estiquei meu braço e a peguei, e logo a puxei.
Não estávamos tão altos, talvez uns três metros de altura, mas Gabi é medrosa pra tudo, até quando viu uma baratinha na areia da praia morreu de medo e chorou até ficar rouca. Quer um conselho? Não vá caçar vagalumes com uma criança tão medrosa assim; você poder acabar se perdendo numa floresta por três horas com criaturas com olhos odiosamente amarelos.
- Isaque - chamei.
- Sim? - falou dengoso pelo sono. Sorri com isso.
- Passaremos a noite aqui mesmo?
- Só até amanhecer. É perigoso passar a noite numa floresta assim no chão.
Não me diga.
- Não é melhor subirmos mais?
- Pra quê?
- Qualquer animal selvagem pode subir nisso daqui. Essas árvores são altas, dá pra subir mais. É mais seguro.
- Tudo bem, vamos subir.
Isaque esticou os braços e seus ombros estalaram ruidosamente, ecoando pelo silêncio da floresta. Ouvi um uivo grave vindo de longe, e então o barulho do vento forte levando folhas secas embora abafou os uivos. Isaque subiu mais alguns galhos, ficando talvez a cinco metros de distância do chão. Olhei para ele e olhei para o chão. Isso não é nada seguro.
- Gabi, meu amorzinho...
- Sim, mamãe?
- Quer brincar de macaquinho?
- Quero!
- Então segura bem firme as costas da mamãe, eu vou subir como um macaquinho. Se você soltar você perde o jogo, tudo bem?
- E se eu não soltar, eu ganho o quê?
- Um prêmio - falei e comecei a pensar no que poderia dar a ela - o que você quiser. Assim que chegarmos na cidade, eu darei o prêmio a você, certo?
- Sim!
Gabi abraçou meu pescoço com os braços e entrelaçou suas pernas na minha cintura, segurando firmemente para não cair. Me acomodei no galho com o peso dela e por várias vezes quase caí por causa da minha perna. Subi vários galhos e consegui ficar num próximo ao do Isaque.
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