- Alô - falou com uma voz arrastada.
- Isaque?
- Quem é?
- Sou eu, Amanda.
- Você sabe que horas são, Amanda? - sorri com sua voz preguiçosa.
- São seis e meia da manhã, ué.
- "Ué" - me imitou com uma voz estridente e aguda.
- Que foi? Você não acorda a essa hora geralmente? - ri dele.
- Claro que sim, quando eu tenho que ir estudar. Hoje é sábado, Amanda. Sábado!
- Então que horas tu acorda geralmente no sábado, criatura?
- Sei lá... dez.
- "Dez" - eu o imitei com a mesma voz estridente e aguda. Claro, a minha saiu feia e estranha, a dele bonitinha. Pelo menos o fez rir.
- Não seja boba - ri dele. - O que você quer?
- Égua, que educação, hein.
- Eu quero dormir e estou falando com você, isso já é bastante educação - eu ri dele, e ele acompanhou a risada.
- Papai e mamãe viajaram, preciso de alguém pra me levar pro orfanato antes que a Gabi acorde.
- Não quer pedir pro Lucas te levar?
- Ele não quer atender o celular.
- E o Caio? Ele te levaria.
- Ele nem sabe quem eu sou as seis da manhã.
- E por que você me ligou?
- Pra te pedir pra me levar no orfanato.
- Mas eu não sei onde fica.
- É perto da vila, eu te mostro o caminho.
- Se é perto, por que você não vai caminhando?
- Esqueceu do gesso? Atravessar aquela avenida com esse gesso seria pedir pra morrer.
- De novo - ele murmurou, eu ri. - Não quer pegar um táxi?
- Hm, na verdade, não.
- E por que eu te levaria?
- Você me levaria?
- Hm, na verdade, não.
- Isaque, por favor.
- Eu tenho que dormir, mais tarde tem vôlei com o pessoal lá da igreja, eu não quero ficar com sono no meio da partida.
- Eu te pago um café depois.
- Seria mais lógico eu te pagar um café, né?
- Você me pagaria um café?
- Hm, quem sabe.
- Então levanta da cama e vai escovar os dentes.
- Não quero levantar.
- Por favor.
- Não.
- Isaque...
- Nããão.
- Por favorzinho.
- Amanda...
- Por favorzinho-inho-inho.
- Tá.
- Tá?
- Sim, tá.
- Okay!
- Chego aí em dez minutos.
- Obrigada, Isaque.
- Me deve uma, hein.
- Vem logo, estou quase pronta.
- Nem levantei ainda.
- Ei, sabe de uma coisa?
- O que?
- Já se passou um minuto.
- Beleza, vou vestir alguma coisa.
- Okay, até daqui a pouco.
- Okay, até mais.
Mandei um beijo estalado no microfone do celular e desliguei. Que menino preguiçoso, meu Deus! Sempre posso contar com ele, amo isso.
Me sentei num pulo na minha cama e olhei para o gesso que quase não dava pra ver seu branco de tantos recados coloridos e abstratos.
"Uma semana, Amanda, falta uma semana apenas", repeti para mim mesma.
Puxei meu joelho com as mãos até encostar meu pé no chão, e então me levantei. Puxei minhas muletas e me apoiei nelas com dificuldade. Uma saudade da mamãe me atingiu e fez meu coração apertar. Daqui a dois meses eu a veria novamente, junto com papai. Faltava muito tempo.
Me arrastei até a cômoda em frente a minha cama e me apoiei nela. Abri uma gaveta e observei as roupas dentro dela. Eu quero ir de pijama. Acho que eu vou de pijama. Puxei uma camisa velha de mangas longas do Isaque e a transpassei pelas minhas costas, formando um casaquinho. Olhei para o chão e calcei um de meus pés com um chinelo antigo que ficava um pouco grande em mim; era um presente do Isaque. Despi-me com muita dificuldade por causa do gesso e logo depois me olhei no espelho. Puxei as mangas da blusa e elevei meus olhos para o meu cabelo.
Que lixo. Nunca mais durmo com cabelo molhado.
Peguei uma fivela e prendi minha franja curta para cima da cabeça, e coloquei as laterais do meu cabelo para trás das orelhas. Nada mal. Peguei meus óculos e os coloquei no rosto. Peguei de volta a muleta e me apoiei nelas, e fui andando (não sei se aquilo podia ser considerado andar, mas okay) até o banheiro. Escovei meus dentes rapidamente e quando estava quase terminando de me aprontar, meu celular apitou e uma luz esverdeada piscou ao lado do visor da tela. Mensagem de texto. Puxei-o do bolso rapidamente e desbloqueei.
"Pensei que estivesse quase pronta"
Ri com a mensagem, e não a respondi.
"Isaque, você está muito zoeiro pro meu gosto", pensei e ri comigo mesma.
Sem comer nada, abri a porta dos fundos e saí de casa. Prendi o chaveiro no apoio para cintos do short após trancar a porta e chequei se não tinha esquecido nada; celular, chaves, bala de menta e uma carta de feliz aniversário para Gabi. Mal posso esperar para vê-la. Quanto tempo que eu não vou no orfanato? Talvez uma semana, ou mais, não me lembro; os estudos estavam corroendo todo o meu tempo livre. Que saco, psicologia é muita leitura mesmo.
Virei para a rua e vi o carro do Isaque parado em frente a calçada de casa. Logo vi a porta do motorista abrindo e me apressei em chegar logo ao carro.
- Quer ajuda? - ele perguntou e já veio me ajudar a andar. Pegou minha muleta direita e passou o braço pela minha cintura; aproveitei e passei meu braço direito pela suas costas e segurei firme no seu ombro. Ele me levou até o carro e me ajudou a sentar no banco do passageiro. Isaque e seu cavalheirismo, amo isso.
Logo ele colocou as muletas no banco de trás e caminhou rapidamente até o lado do carro, abriu a porta do motorista e se sentou.
- O que te fez ficar tão enérgico de manhã cedo?
- Um copo de café, talvez.
- Ew.
- Que foi?
- Café é ruim.
- Café é vida.
- Não acho. Ele é ruim, te deixa com insônia por um tempão e depois ainda te faz ficar com sono logo quando você decide fazer algo de bom.
- A cafeína não é eterna, uma hora o efeito dela tem que acabar.
- E você gosta disso.
- Não sei como você não gosta.
- Excuse me, isso é muito ruim.
- Faz bem pra saúde.
- Acelerar o metabolismo e os batimentos cardíacos e logo depois parar porque "a cafeína não é eterna" faz bem pra saúde?
- Ei.
- O quê?
- Esquerda ou direita?
- Ahn? - fiz uma cara de confusão. Ah, sim, o caminho. Indiquei o caminho e ele acelerou até o limite de velocidade permitida pelas regras de trânsito. Não precisa de pressa, ninguém acorda as seis da manhã num sábado.
Depois da treta do café, ficou um silêncio chato no carro. Nem o rádio fora ligado; o silêncio estava corroendo cada pedaço daquele ambiente. Fale alguma coisa, Isaque, não deixe o clima ficar mais tenso.
- E essa perna? - puxou assunto. Graças a Deus!
- Ah, só semana que vem que eu tiro esse coiso chato.
- Como foi que isso aconteceu mesmo?
- Talvez eu não tenha visto o sinal fechado pros pedestres.
- Falta de atenção.
- Desculpa, papai - ironizei.
- Ainda dói?
- Bem, eu não sinto mais nada, mas dói um pouquinho pra pisar no chão.
- Eu estudei isso ano passado na faculdade.
- Só tu mesmo pra entrar na faculdade com dezoito anos.
- E você entrou com dezessete - falou e eu ri sem nenhuma moral. - E eu já te expliquei isso, Amanda.
- E eu já entendi, mas acho um exagero isso. Não tem necessidade disso, né?
- Medicina é muito extensiva, eu quero terminar logo a faculdade pra fazer logo os níveis superiores e poder "finalizar" os estudos pra começar a trabalhar.
- Não o julgo, psicologia também não é nada curta.
- Posso te fazer uma pergunta?
- Sim, ué.
- Por que você vai no orfanato tantas vezes?
- Eras, você precisa de mais calma na hora de mudar de assunto - ele riu.
- O que é que tem? - perguntou e continuou rindo.
- Parece que tu não tem mais nenhum interesse no assunto e quis, simplesmente, trocar de assunto como um "dane-se", sabe? - devo ter falado algo muito ridículo, pois o fez rir ainda mais.
- Responde logo, Amanda, para de enrolar.
- Eras, man - me fingi ofendida com a cortada dele, mas depois ri comigo mesma da brincadeira - gosto de ir ao orfanato porque, ai, eu não sei explicar, eu gosto do clima de lá, e gostaria de poder adotar todas as crianças de lá, elas devem se sentir muito mal em não ter uma família. Isso me faz me sentir mal, e ir lá periodicamente cuidar das crianças como eu cuidaria dos meus filhos é uma coisa que me faz me sentir melhor, e provavelmente faz as crianças contentes.
- Você prefere adotar do que engravidar?
- Acho que prefiro, sim.
- É medo de engravidar?
- Medo, Isaque? "Eu" e "medo" não se adequam em uma mesma sentença.
- Exceto pela sentença de que você tem medo de engravidar.
- Não tenho medo, apenas acho que seria muito bom pra uma criança poder ter uma família ao invés de ficar sozinha sem pais, mesmo que adotivos, pela vida inteira, quem sabe. Você preferiria adotar ou preferiria que sua futura esposa engravidasse?
- O que for melhor pra ela, tudo bem. Desde que seja com ela, por mim está tudo mais que perfeito.
- Awnn - me inclinei e apertei a bochecha dele, que puxou o rosto em seguida com um sorriso constrangido.
Logo depois da conversa fluir, fomos conversando até ele parar o carro bruscamente e eu quase voar para frente; graças ao cinto de segurança, continuei no mesmo lugar. Ele destravou a porta e desceu logo do carro, quase sem nem olhar pra mim, e depois pegou as muletas e veio até a porta do passageiro e a abriu, me fazendo notar a roupa que ele estava usando; uma blusa azul de mangas compridas e uma bermuda branca, e um chinelo antigo que se assemelhava com o meu.
- Você também não está pronto - zombei dele apenas de pirraça.
- Eu não disse que ia me aprontar - replicou. Ele tinha razão, ri dele. Estendeu a mão e eu a segurei, logo me puxei e fiquei de pé no chão ao lado do carro, quase caindo equilibrada num só pé.
Estiquei meu braço pra pegar a muleta e, quando estava prestes a segurar o apoio para mãos, Isaque puxou a muleta e por pouco eu não caí de cara no chão, e até me impressionou o fato de que o lugar mais próximo pra minha mão se apoiar para não cair era o abdômen muito bem definido do Isaque. Me equilibrei de volta e retirei minha mão que se encontrava apertando com firmeza a camisa dele. Senti uma tonalidade avermelhada invadir minhas bochechas quando notei que ele me observava com uma expressão indecifrável. Juro, não dava pra entender o que ele queria transpassar naquela droga de expressão. Meus pensamentos foram interrompidos quando ouvi Isaque pigarreando e me entregando as muletas.
- Quer que eu te leve lá dentro?
- Seria interessante.
- Vamos lá - ele transpassou o braço pela minha cintura novamente e eu abracei as costas dele, até minhas mãos se acomodarem na dobra do ombro dele. Quase saltitando, chegamos até a porta do orfanato e me surpreendi ao ver Gabi sentada brincando de despetalar uma flor vermelha que ainda estava com gotículas do temporal da madrugada. Isaque me ajudou a chegar perto dela e eu me abaixei suficientemente para minha boca se aproximar de seu ouvido. Sem ela notar, sussurrei um “bu” com uma voz diferenciada da minha e ela olhou assustada para mim, mas logo sua expressão se transformou de assustada para contente.
- Você voltou! - ela falou um pouco baixo para não acordar os outros órfãos.
- Voltei sim, amor - abracei-a e ela agarrou meu pescoço com força, quase me jogando no chão. Logo, olhou para meu joelho e desceu os olhos para o gesso. Fez uma careta confusa.
- O que é isso, tia Amanda?
- Eu me machuquei um pouquinho.
- Você quer um curativo?
- Eu já tenho um - apontei para o gesso. Ela não tinha ideia da gravidade do machucado. Um curativo não iria resolver isso. Ri comigo mesma. Com quatro anos é melhor que ela nem imagine a gravidade desse machucado.
- Ontem eu ganhei uma caixinha de curativos cor-de-rosa - falou com sua voz dengosa e apontou direto para seu cotovelo. Um curativo rosa-bebê transpassava uma vermelhidão leve no seu cotovelo.
- Parece que já inaugurou o curativo, sua danadinha - apertei a ponta de seu nariz e ouvi alguns passos atrás de mim. Olhei para trás e vi Isaque se distanciar um pouco, ainda virado para mim. - Aonde você vai? - perguntei ainda com um resquício de sorriso no meu rosto.
- Vou voltar pra casa, continuar o que eu fui bruscamente interrompido - zoou. Ri dele e então senti uma cutucada da Gabi no meu ombro com seus dedinhos finos e delicados. Virei o rosto e ouvi mais passos atrás de mim. Virei minha cabeça para ele e o olhei com cara de “não se atreva a dar mais um passo”, e então ele parou de andar.
- Quem é esse, tia? - Gabi apontou para o Isaque. Sorri com ela olhando com cara de “ele vai me sequestrar?” para ele.
- Ele se chama Isaque, é meu melhor amigo e ele me deu uma carona aqui hoje - olhei para o Isaque, pisquei para ele e virei para Gabi. Ela sorria amigavelmente para ele. - Diga oi para ele, Gabi.
Melhor amigo.
Bem que podia ser mais que isso.
Ela se soltou do meu abraço e foi correndo abraçar ele. Ela gostou dele, que fofo! Ele a pegou no colo e ficaram conversando alguma coisa, e então, após começarem a conversar sobre esportes, provavelmente ele se lembrou do compromisso com os colegas da igreja na quadra de vôlei, e então parou de conversar, o que fez Gabi desconfiar.
- O que foi?
- Preciso ir embora logo.
- Posso te fazer uma pergunta, tio Isaque?
- Claro, pode fazer qualquer pergunta.
- Você é namorado da tia Amanda?
- O quê? - riu. - Não, somos apenas amigos.
“Huur duur, meu nome é Isaque, somos apenas amigos”. Que saco.
- Você gosta dela?
Confesso que essa conversa nunca foi tão interessante assim.
- Gosto, gosto muito dela - ele falou e sorriu, sem desviar o olhar dos olhos da Gabi nem por um instante. - Ela é minha melhor amiga, esqueceu? É claro que gosto dela.
- Por que vocês não namoram?
Vou tirar os contos de fada dessa garota. Se fosse tão fácil assim...
Pigarreei e limpei a garganta logo após. Não sei por que fiz isso, apenas me senti incomodada com a pergunta. Estava curiosa para saber, mas, de uma forma ou de outra, eu não queria saber. Me levantei e me agarrei nas muletas, e estendi o braço para a Gabi vir para o meu colo. Não era difícil levantar a Gabi no colo mesmo estando de muletas, acho que eu conseguiria andar sem problemas por isso.
- Não quer tomar o café da manhã, amor?
- Sim! - respondeu entusiasmada.
Virei pra trás e vi Isaque observando o relógio. Ele estava incomodado com alguma coisa, isso era óbvio.
- Isaque, você quer ir nesse jogo de vôlei?
- Ahn?
- Se tu quer tanto ir nesse troço, então vai.
- Não... quer dizer, sim, mas...
- Isaque.
- Por que você não vem jogar com a gente?
- Isaque, olha o que tem nos meus braços.
- Não tem aquele negócio de adotar uma criança por um dia? Você é freguesa daqui, vem aqui há anos, eles confiam em você.
- E com quem ela vai ficar?
- Ela pode brincar com a filha do pastor, a Hannah, elas têm quase a mesma idade.
Eu queria ir. A Hannah e a Gabi iam se divertir muito juntas. Rever o pessoal da igreja ia ser ótimo. Ai, por que é tão complexo?
- Eu vou falar com a tia Rosa.
O olhar do Isaque se iluminou e o sorriso dele abriu um pouco. Que bonitinho! Entreguei Gabi aos braços dele e avisei para ele dar o café da manhã dela e eu já ia na cozinha ver eles dois, mas agora eu tinha que falar com a tia Rosa, que era quem adminis
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