abril 10, 2014

Breathe me in, breathe me out

April 04th, 2026
11:44pm - Malibu, California

- Você tinha que acordar ela, né?
- Ahn? Agora a culpa é minha?
- Claro, podia olhar por onde anda.
- Não vou discutir com você.
- Claro que não, você nunca ganha.
- Nossa, imagina, claro que não.
- Ainda duvida disso?
- Não, majestade, que isso.
- Seu sarcasmo me irrita - resmuguei pra mim mesma, sem querer que ele ouvisse.
- Oh, meu amorzinho... - riu e se pôs de joelhos pra me dar um beijo na bochecha.

Assim que meu cunhadinho Lucas virou papai, surgiram milhares de viagens para o exterior. Lorrane, que não é boba, inventou de ir fazer umas reuniões pra longe para não cuidar da filha, que já não parava quieta apenas pedindo desesperada pelo colo da mãe. Estava tudo bem, eu curtindo um pouco a semana de aniversário de casamento de seis anos com o Isaque, ele havia prometido muito mais que um anel ou um colar novo. Muito mais do que algo material (hm), mas nossos planos foram destruídos quando os pais do Lucas e do Isaque resolveram largar de mão a criança e sair pra viajar, e nós tivemos que cuidar da pequena rebelde Judith.
Sim, na semana de aniversário de casados, ficamos presos tendo que observar 24 horas por dia uma menininha, para ver se ela não vai passar mal ou piorar pela febre intensa. Essa noite estávamos tentando aproveitar - nem que seja um pouquinho - o silêncio e a calmaria da noite. Sem sucesso, óvbio. Logo após abrir a porta do quarto de hóspedes da casa de Lucas, Isaque chutou um vaso e ele caiu e quebrou, fazendo o barulho ecoar pela casa inteira até chegar nos adoráveis tímpanos da pequena Judith, e estragar a noite com esse choro insuportável.

- Já viu se a frauda dela tá suja? - Perguntou. Ri debochada dele.
- Já sentiu o cheiro da bosta dela? Se ela estivesse cagada, daria pra sentir lá de casa - riu disso.
- Pra ela chorar desse jeito, tem que ter um motivo além do estrondo de ainda pouco.
- Hm.
- Que é? Já falei que foi sem querer!
- Tá, que seja - falei e soltei um sorriso divertido pelo suspiro ruidoso de Isaque. Bahh, é legal irritar ele, e daí? Me levantei com Judith no meu colo e fui andando até o berço dela, peguei uns três lenços e voltei para cama, me sentando na beirada como antes. Enrolei os lenços e limpei o nariz dela, que estava escorrendo de tanto chorar.
- Ei.
- O quê?
- Não acha que ela se acalmaria cantando uma canção de ninar para ela?
- Nem sei - falei sincera. Nessa hora, até fazer careta para ver se ela sorria nós tentamos, mas nada expressava o rosto dela senão o choro ruidoso e rouco pela gripe que ela pegara há uns dias. - Não é uma má ideia - confessei. Olhei pra ele e sorri com a cena. Deitado na cama sem sua camisa e com sua bermuda arriando, com a cabeça jogada pra um canto e o olhar perdido em alguma parte do teto. Sua mão estava apoiada no abdômen e a outra estava jogada pra cima, deixando seu bíceps bem saliente. Por falar em saliência... Não, não. Tem uma criança no meu colo, não vou pensar nisso. Bem, não agora, né. - Corre lá no quarto do Lucas, pega o violão dele, vamos ver se isso acalma ela.

Imediatamente, sem nem discutir, Isaque se sentou na cama e logo depois saiu andando pela casa enquanto estalava os dedos. Fiz "shh" para Judith se acalmar, mas tudo que recebi de volta foi um grito exasperado da continuação do seu choro. Pra que essa rebeldia toda, jovem? Isso tudo era amor por aquele vaso? Apoiei o rosto dela no meu ombro e a deixei entrelaçar os dedos no pouco cabelo que mantive após a ultima ida no salão e puxar o quanto quisesse. Juro, aquilo não me machucava mais (hm). Fechei os olhos com a cabeça apoiada na dela. Sono. O efeito do vinho atacara agora.

- Cheguei - ele avisou logo na porta e eu abri os olhos logo. Mais um grito dela e meu raciocínio acordou, um terço do meu sono passou por causa dela. Por culpa dela. Menina rebelde. Vou tirar o chocolate dela. Olhei pro Isaque que havia acabado de sentar ao meu lado na beirada da cama. - Qual música?
- Nem sei. Não conheço a letra de nenhuma de ninar.
- Nenhuma mesmo? Nana neném? - Neguei com a cabeça. - Durma bem? - Neguei. - Boa noite, belezinha? - Neguei. - Bela infancia, hein.
- Fala isso pra minha mãe - falei e nós dois rimos.
- Pensa em qualquer música que não seja uma daquelas enjoadinhas que tu fica escutando o tempo todo.
- Sei lá... eu só conheço a letra de Slow Down, da Sel. Pode ser?
- Bela letra pra cantar pra uma criança.
- Pode ser ou não?
- Pode, vamos lá.

Deixei a criança deitada na cama ainda chorando, e esperei ela puxar o ar e dar um intervalo dos gritos, e Isaque passou os dedos rapidamente pelas doze cordas do violão e Judith travou mais um grito com um soluço, ouvindo atentamente o som se esvair pelo quarto antes de sumir. Ele amava essa música, apesar de detestar a Selena. Eu escolhi a playlist de casamento com minhas colegas, então só deu Selena Gomez, Demi Lovato, Avril Lavigne, One Direction e Mcfly, e foi a primeira música que nós dançamos juntos naquela noite. Posso estar errada, mas foi essa música que acompanhou meus fones de ouvido e meu ipod na nossa lua de mel, assim como a nossa primeira noite juntos também. Notei que quando Isaque começou a música, não foi pelo início, mas sim pela metade da primeira estrofe. Ri disso e resolvi nem contestar.

Mr. T say I'm ready for inspection
(Sr. T diga que estou pronta pra inspeção)
Show me how you make a first impression
(Mostre-me como se faz uma primeira impressão)

Judith parou de chorar e ficou encarando as notas saírem do violão, e também minha boca se mexendo e minha garganta se forçando para alcançar os tímbres agudos sem gritar - primeiro porque eu não sou uma neném revoltada, e também porque tem vizinhos aqui, já basta um neném. Judith soltou um soluço e se acalmou na cama olhando pra nós dois, que estávamos bem na sua frente.

Oh, oh
(Oh, oh)
Can we take it nice and slow, slow
(Podemos fazer isso de um jeito legal e devagar, devagar)

Nessa parte olhei para Isaque. Um sorriso bem maroto estava plantado sem discrição no seu rosto. Nem imagino o que mais esteja sem nenhuma discrição aqui... Opa, agora não. Ainda não. Afinei o tom da voz para combinar com o da Sel e olhei para Judith. Ela olhava meus ombros e colo subir e descer acompanhando o ritmo da música. Analisei a letra da música desde então.

Break it down and drop it low, low
(Pare a batida e vá até o chão, chão)
'Cause I just wanna party all night in the neon lights
(Porque eu só quero curtir a noite toda sob as luzes neon)
'Til you can't let me go
(Até que você não consiga me largar)

Deixei meu tom agudo esvanecer e tomar o tímbre normal da minha voz no seu lugar, e continuei cantando. Olhei para Judith sorrindo com os olhos quase se fechando, e estávamos quase conseguindo fazer o castigo acabar. Tá bem que não é certo namorar - hm - com uma neném do quarto ao lado, mas não precisava desse escandalo todo. Até parece que ela nunca vai seguir os passos dos titios. Égua, juro que nunca mais tomo algum tipo de álcool antes de dormir, pelo amor de Deus, isso não é coisa minha.

I just wanna feel your body right next to mine
(Só quero sentir o seu corpo bem perto do meu)
All night long
(A noite toda)
Baby, slow down the song
(Baby, desacelere a música)

Olhei para Isaque, que continuava tocando sem dar muitos intervalos entre um verso e outro. Estava tocando bem pra quem tomou quase o dobro de taças que eu. Sorri nessa parte. "I justa wanna feel your body run next to mine". Eu bem que podia concordar com esse trecho. Olhei de volta para Judith e ela havia fechado os olhos. Sim, nós conseguimos fazer essa coisa dormir apenas cantando uma música. Podíamos ter tentado isso antes. Me ajoelhei na cama ainda cantando a música sem desafinar, peguei Judith pelo braço e a aninhei em meu colo. Andei até seu berço ainda sem parar de cantar e a coloquei lá, com o maior cuidado para não acorda-la. 

And when it's coming closer to the end hit rewind
(E quando estiver chegando perto do fim, volte ao começo)
All night long
(A noite toda)
Baby, slow down the song
(Baby, desacelere a música)

Sem parar de cantar, caminhei lentamente até a frente da porta e a abri bem devagar. Olhei pro interior do quarto e Isaque logo notou que eu havia parado de cantar e parou de tocar no mesmo instante, deixando o violão em cima da cama e caminhando até a porta na ponta de seus pés. Me afastei e deixei que ele fechasse a porta em silêncio. Olhou pra mim e sorriu.

- Conseguimos, né?
- Claro - falei e sorri. - Só não chuta nada agora, okay?
- Uhum - falou e se encostou na parede. Suspirou. - Minha ideia deu certo, hein?
- Talvez - sorri sem querer dar o braço a torcer.

Encostei-me na parede e só queria retomar o que tínhamos começado. Olhei para ele. Amanhã é dia de procurar onde deixamos a sua camisa antes do pequeno incidente do vaso. Tive uma ideia.

- Ei.
- Diga, amor.
- Mr. I say I'm ready for inspection... - cantei o primeiro verso e adaptei a inicial dele na frase. Ele provavelmente achou engraçado isso. - Show me how you make a first impression... - riu disso e eu me aproximei dele, passando meu braço pelo seu pescoço. Me pus nas pontas dos pés e ele abraçou minha cintura, nos aproximando. - 'Cause I just wanna party all night in the neon lights - pulei uns versos e cantei esse aproximando nossos rostos. Ele permanecia parado, apenas me ouvindo cantar. - 'Til you can't let me go - cantei e nem consegui alcançar o tímbre alto desse verso, mas deixou minha voz rouca, e eu sabia como ele adorava isso. - I just wanna feel your body run next to mine - sussurrei essa parte e ele me aproximou mais dele do que antes. Nossos abdômens se tocaram e nossas testas já estavam quase encostadas. Sorri e olhei para seu sorriso perverso. - All night long... - sussurrei mais baixo ainda e toquei nossos nariz. Meus lábios já roçavam de leve nos dele. - Baby, slow down the... - fui interrompida por um beijo nada calmo e paciente.
Nada calmo e paciente.
Foi assim até amanhecer
Hm.




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