Fevereiro 03, 2019
6:15am - Rio de Janeiro, RJ
Artic Monkeys me acordou naquela manhã ensolarada. Primeiro dia de aula da faculdade no mesmo lugar que terminei o colegial há três anos. Me levantei atrapalhado com o tanto de cobertores que resolvi me cobrir nessa manhã, mas depois de jogar tudo pro canto, peguei rapidamente meus óculos e os ajeitei no rosto, pegando meu celular e desligando, fazendo a gitarra de "Do I Wanna Know?" parar instantaneamente. Olhei pros lados e nem acreditei que as férias terminaram.
Peguei meu uniforme da escola que eu esquecera de passar na noite anterior, o que deixou a minha camisa parcialmente amassada nas costas, mas nada constrangedor. Peguei uma boxer e um par de meias e entrei no banheiro, deixando o celular com um cronometro contando 10 minutos. Abri a torneira da banheira de cerâmica e deixei que a água enchesse pela metade a banheira. Despi-me e senti o frio insuportável do Rio de Janeiro batendo na minha cara. Podia até ser verão, mas as manhãs são sempre geladas, apesar do sol tímido que aparecia entre poucas nuvens.
Entrei na banheira, joguei minha cabeça pra trás e fechei os olhos. Lembranças do ano passado me vieram a cabeça. Meus amigos, minhas colegas, minhas professoras, até mesmo colegas do trabalho de meio período que eu fazia só pra constar, levando em consideração que não era necessário. As férias me deixaram com o pensamento de que seria bom para eu me desapegar um pouco as amizades e focar nos estudos, o que eu não diria que não aconteceu - esses últimos dois meses foram de alta produtividade tanto nos meus estudos como no meu conhecimento e na minha organização rotinária.
Mais uma vez, Artic Monkeys foi o motivo da minha pulsação aumentar com o susto da guitarra esvaindo o ambiente com seu tom estridente. Pelo menos era uma música legal. Levantei da água quente e mais uma vez senti o ar frio bater no meu rosto e ombros, e a vontade que tive era a de ficar lá pra sempre. Saí da banheira e destravei o ralo, fazendo a água sumir completamente em menos de dois minutos. Vesti uma boxer que pegara anteriormente e logo em seguida minha calça e as meias. Saí do banheiro e dei passos largos para desligar o aquecedor. Coloquei a camisa da escola pelas mangas e a abotoei com mais calma depois. Juntei uns livros que meus pais compraram para mim no início do mês passado e os coloquei junto com umas canetas e umas lapiseiras com mais cuidado dentro da mochila preta com uns botões de bandas, séries e jogos presos na lateral inteira da mochila. Olhei pela janela e o sol acabara de ser coberto por umas nuvens claras.
Ergui facilmente a mochila e a coloquei sobre meu ombro direito. Olhei o relógio. 6:30am. Hoje demorei mais. Segurei meu par de allstar brancos com dois dedos e saí do quarto, abrindo a porta lentamente para não fazer barulho. Andei pelo corredor um pouco estreito e logo ao passar pela porta do meu irmão, lembrei que eu era o despertador ambulante dele. Abri a porta do quarto ruidosamente, fazendo-o se contorcer na cama e voltar a dormir logo em seguida.
- Lucas - chamei. Se revirou e nada. - Lucas, acorda - chamei novamente.
"Shh" foi o único som que Lucas deixou escapar na hora. Ah, é assim? Tá bom então. Entrei no quarto e peguei o travesseiro caído dele e o segurei firmemente com as mãos, e logo em seguida o joguei na cara dele, deixando uma leve risada escapar de minha boca. Sua cabeça automaticamente se levantou e ele revirou o lugar com os olhos, tentando entender o que havia acontecido.
- Droga, Isaque.
- Levanta logo, porque hoje ainda tem que descobrir em que sala nós ficamos - dei um tapa na sua testa. - Levanta, sedentário.
- Mamãe voltou da viagem? - Perguntou. Sem virar para trás, respondi um "nop", logo entrando no corredor.
- Acho bom se arrumar logo, hoje você não vem no mesmo carro que eu - gritei do corredor e o ouvi murmurar um "graças a Deus". Ri logo em seguida.
Desci as escadas e dei largos passos até a cozinha, e abri a geladeira. Pedaços de bolo, fatias de pizza e hambúrgueres me deixaram na tentação, mas logo fechei a porta da geladeira rapidamente e olhei para a fruteira em cima da mesa. Peguei uma maçã e fui até a sala pegar minha carteira e minhas chaves.
- Tchau Lucas, tô saindo - gritei e ele respondeu um "okay" bem arrastado. Ri de novo. - Não pretendo voltar na hora hoje, então nem me espere.
Abri a porta e caminhei alguns passos até chegar na garagem. O portão se abriu e eu entrei no ambiente logo em seguida, desarmando o alarme e destrancando as portas ao mesmo tempo. Abri a porta do motorista e num pulo subi na Captiva nova, jogando a mochila no banco do passageiro e colocando a chave na ignição. Fechei a porta e dei uma bela mordida na maçã. Liguei o carro, dei outra mordida na maçã e a joguei pela janela, quase errando a lixeira, mas acabei acertando. Coloquei na marcha ré e saí da garagem. Dirigi a 40km por hora até chegar na portaria, onde desacelerei até parar e então o porteiro abriu lentamente o portão e eu pude sair com o carro. Seguindo o contrafluxo do engarrafamento, consegui dirigir até 70km por hora até chegar na frente da casa de Isabelle, uma amiga minha. Buzinei duas vezes e esperei que ela aparecesse antes de sair com o carro. Olhei para o lado e ela apareceu com o uniforme sempre justo dela. Não que ela fosse gorda, mas é que eu nunca vi ela usando alguma roupa que não ficasse extremamente apertada nela. Destravei o carro e deixei que ela abrisse a porta do passageiro e entrasse.
- Bom dia, Isaque - falou e se esticou para o lado para me cumprimentar com um beijo na bochecha, como sempre fazíamos desde nossa adolescencia.
- Bom dia, Belle - cumprimentei. - Preparada pro primeiro dia de aula?
- Huh... não mesmo - falou e riu, e eu ri junto. - Nada contra estudar e tal, mas depois de dois meses acordando apenas meio dia e indo dormir duas da manhã, talvez tenha desacostumado bastante com isso tudo.
- Acordar meio dia e dormir duas da manhã. Esse é o seu melhor? - Ri dela. Ela virou o rosto e me olhou me desafiando. - Já acordei três da tarde e virei a noite, licença colega - falei e ela riu estrondosamente. Ah, isso não é um bom som para se ouvir de manhã.
Acelerei com o carro e dirigi mais uns três minutos numa alta velocidade até chegar na alameda onde Caio, outro amigo meu, morava. Buzinei mais demorado dessa vez e fiquei conversando com Isabelle enquanto ela falava sem parar sobre sua viagem para Brasília. Olhei para o lado e vi Caio todo bagunçado com uma sacola cheia de alguma coisa que ele comia sem parar. Destravei o carro novamente e esperei que ele entrasse no carro.
- Bom dia, Belle - falou e se sentou, colocando sua mochila ao seu lado e se sentando no meio do banco de trás.
- Bom dia, Caio - sorriram entre si.
- E aí, cara? - Me cumprimentou rapidamente e tirou de dentro da sacola de papel reciclado um pedaço quadrado de bolo de brigadeiro. - Alguém quer? - Perguntou e Isabelle nem hesitou em virar pra trás e pegar o bolo como uma ninja.
- Tua mãe que fez? - Perguntei.
- Sim.
- Me dá um, então - falei e esperei que ele tirasse outro pedaço e me desse. Com duas modidas, comi o bolo e logo acelerei.
- Quem mais a gente vai buscar, Isaque?
- Lorrane, Glecia e Izabela, eu acho - falei e ouvi Caio suspirar ao dizer o nome da Glecia. Sorri com isso.
- Só elas três? - Belle perguntou. Dei de ombros e assenti, com o cenho franzido. Eu estava esquecendo alguém? - Não tá esquecendo ninguém não?
- Não, eu acho - falei e comecei a recapitular quem mais era pra pegar. - Lucas vai com o carro dele, eu, Isabelle, Caio, Glecia, Izabela, Lorrane, Vinícius tá na Europa... ah, já sei! A Amanda, né?
- É, cabeção, a gente ainda vai buscar ela? - Caio perguntou enquanto arranquei com o carro e acelerei até o limite de velocidade da via.
- Ela já voltou da California? - Perguntei enquanto tirava a mão da marcha e coçava a nuca. - E ela não tem um carro já?
- Ah é, agora ela tem dezoito anos, né - Isabelle falou e apoiou o rosto nas mãos. - É difícil acreditar que seis anos já se passaram - falou mais para si mesma do que para nós. - Lembro de quando ela chegou na igreja com 12 anos e era toda tímida, parecia um cachorrinho - falou como se fosse mãe dela - e depois de umas semanas foi num retiro de carnaval com a gente - puxou o ar e o soltou lentamente - e começou a ficar mais sociável, pedindo meus shorts emprestados porque os dela tinham ficado apertados depois de entrar no igarapé, derretendo os cubinhos de queijo naquela fogueira gigante que deu errado, e no dia seguinte ela acordou com as bochechas todas vermelhas de tanto ficar na frente do fogo...
- E quando o pastor falou sobre o homem que afirma ter aberto os olhos na oração e visto a criatura com cabeça de bode e ela ficou toda assustadinha? - Caio riu e eu não pude deixar de rir. Isabelle morreu de rir na hora. - E aí eu peguei a carcaça do boi e saí correndo pelo quintal com ela na frente do meu rosto... - foi interrompido pelas suas próprias risadas incessantes. Ri também ao lembrar da situação. - Ainda lembra desse retiro, Isaque? - Perguntou entre risos.
- É óbvio que eu me lembro - afirmei.
Sim, eu me lembro muito bem desse retiro. Me lembro quando ela chegou na igreja de calça moletom e uma regata branca que provavelmente era do irmão dela, com uma bolsa jeans pendurada no ombro e seus óculos escorregando pelo nariz, como sempre. Me lembro quando nós chegamos na fazenda e ela ficou andando de um quarto pro outro se perguntando aonde ficaria, toda perdida que nem um tigre no meio de onças. Me lembro quando sentamos atrás da casa e ficamos conversando e compondo uma música com as frases sempre rimando com "feliz", mas ela não pôde ficar porque era sua vez de lavar a louça do jantar. Me lembro quando jogamos War e ela fez dupla com seu irmão, mas ele não a deixou jogar e ela quase bateu nele. Me lembro quando fomos pro igarapé e ela se esqueceu que tanto seu short como sua camiseta ficariam transparentes quando fossem molhadas e seu biquíni rendado ficaria aparente - muito bem aparente, aliás. Me lembro quando ela pegou o short jeans da Isabelle e ficou provavelmente uns três tamanhos além do dela e ela teve que usar um cinto quase no máximo de apertado pro short não cair. Me lembro quando ela foi jogar vôlei no time adversário e nós quase nos beijamos numa cortada que acabamos fazendo ao mesmo tempo, um de frente pro outro. Me lembro quando eu fiquei com ciúmes do Lucas e do Vinícius levantando a Amanda pelos pés para que ela pegasse umas frutas numa árvore alta na frente da fazenda. Me lembro quando jogamos vôlei na frente da casa e eu armei a maior discussão porque as regras que o juiz colocou eram diferentes do vôlei normal, e ela veio dizer que ela não estava vendo nenhum juiz profissional, jogadores profissionais, quadra profissional ou manual de regras por perto, e me mandou parar de frescura. Me lembro quando a bola caiu no telhado e eu morri de preocupação quando o pastor e os demais aceitaram a possibilidade dela subir no telhado e pegar a bola. Me lembro quando fizemos uma cavalgada e por pouco eu não ia no cavalo com ela. Me lembro quando fomos deixar os cavalos no celeiro e acabamos levando uma hora pra voltar porque nós nos perdemos no meio da floresta e ela levou uma bronca por isso. Me lembro quando eu queria estudar e ela queria ir pro igarapé, e ela me forçou a fazer a minha primeira promessa a ela, e quase me deu um tapa quando quis jurar de mindinho com o mindinho esquerdo. Me lembro da despedida e de como ela ficava tirando os meus fones de ouvido o tempo todo, e de como minha mãe e a mãe dela achava que tinha uma química entre nós. Me lembro de muita coisa, Caio. É óbvio isso.
- Alô, Terra chamando Isaque, Terra chamando Isaque - Isabelle estalou os dedos na minha frente e então notei que estava andando a 20km numa via de 80km por hora. Pisei no acelerador e voltei à órbita.
- Onde você estava, cara? - Caio perguntou e eu fiz um pequeno "uhn?" logo após, mesmo tendo entendido. - Sei lá, tu parou de rir e responder nossas perguntas do nada e desacelerou quase parando o carro.
- É só o sono, cara - inventei uma desculpa, mas ele não pareceu acreditar, e já ia contestar quando resolvi mudar o assunto. - Enfim, nós vamos buscar ela ou não? - Perguntei assim que parei na frente da casa da Glecia e da Izabela, esperando elas saírem de lá e chegarem ao carro. Destravei as portas e esperei que elas entrassem.
- Se der tempo, seria ótimo fazer essa surpresinha pra ela - Belle falou e eu dei de ombros.
- Do que estão falando, amores? - Glecia perguntou quando entrou no carro e se sentou no lado de Caio e ele virou o rosto pro lado para não ter que ver a cena dela se esticando para dar um beijo na Belle. Izabella sentou logo ao lado e colocaram a mochila em cima do colo de cada um.
- Se nós vamos buscar ou não a Amanda - Isabelle respondeu e eu quase dei um peteleco na cabeça dela.
- Meu Deus! - Izabela quase gritou e todo mundo (exceto eu, claro) olhou para ela assustado. - Eu nem lembrava mais dela!
- Claro, depois de dois meses sem ir mais pra igreja ou manter contato conosco, não é uma reação muito inesperada - desdenhei de novo.
- Égua, é verdade, mano - Glecia falou e cobriu a boca com uma das mãos. - Não contem isso pra ela, por favor.
- Nossa, cara, que saudades eu senti daquela pirralha - Izabela falou sorrindo e causou risadas em todos nós.
- Pior, eu tô com saudades dela - Caio falou e todos olharam pra ele com um olhar de "hm, sei" para ele. - E do irmão dela também, claro. Eles fazem falta na igreja - tentou mudar de assunto.
- Faculdade na Europa, huh? - Isabelle comentou chamando a atenção de algumas pessoas.
- Verdade, cara, ele se deu bem indo cedo pro exterior fazer faculdade e tal - Glecia comentou.
- Hora da fofoca - resmunguei e riram com meu comentário.
- Vish, então essa hora vai durar um pouco mais de sessenta minutos, colega - Caio brincou e eu tive que rir, enquanto as meninas fizeram uma cara emburrada de contrariação, que só me fez rir mais.
Ficamos conversando um pouco mais até pegarmos a Lohanne e ela contar que não teve um dia sequer que não tenha conversado com Amanda por email ou telefone. Sim, o irmão dela se casou em Brasília com uma tal de Melanie, Melyna, Mel, sei lá. Realmente Amanda já havia voltado pro Rio havia talvez uns três dias, o suficiente pra se reacostumar com o Rio e o português e tal. Ela havia se mudado desde que seus pais resolveram passar mais tempo com os avós dela lá no norte do Brasil, e ela ficou morando sozinha já tem uns três meses, e está viajando tem dois meses, e confesso que a saudade está realmente forte.
- Erm... - interrompi a conversa de todos quando parei em frente a antiga casa da Amanda, onde apenas alguns entulhos e restos de tijolos quebrados estavam concentrados. - Alguém sabe o novo endereço dela?
Num minuto, todos ficamos calados olhando um pro outro, até que risos começaram a surgir e começamos a rir muito na hora. Só fomos parar quando do nada uma buzina nada paciente soou ruidosamente atrás da Captiva e todos ficaram em silêncio enquanto eu olhava para trás, apenas vendo uma moto incrivelmente brilhante cor-de-cereja e mais uma fila de carros atrás, só então vi que estávamos fechando uma via no centro da cidade há três minutos.
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